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Cientista alerta que UHE do Bem Querer será mais um desastre para a Amazônia

O doutor em Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Philip Martin Fearnside, afirmou em artigo publicado na no portal da Agência Amazônia Real, que a Usina Hidrelétrica do Bem Querer é mais um desastre amazônica à vista.

No artigo, Fearnside explica que a Amazônia já tem mais de uma dúzia de grandes hidrelétricas, que provocam uma série de severos impactos humanos e ambientais e com benefícios muito aquém dos que foram imaginados pelos seus proponentes na hora das decisões.

Segundo ele, as lições desta história não foram aprendidas, e hoje o governo avança rapidamente nos seus preparativos para mais uma barragem com sérios questionamentos – a Usina Hidrelétrica (UHE) Bem Querer, planejado para barrar o rio Branco, em Roraima, em 2028 com 650 MW instalados.

Philip explica que no caso da UHE Bem Querer, os impactos são bastante grandes, uma vez que inunda um trecho de 130 km do rio Branco, eliminando os ecossistemas aquáticos no rio de alta biodiversidade. Além disso, elimina as matas ripárias, afeta diretamente três unidades de conservação que se encontram logo a jusante da barragem (Parque Nacional do Viruá, Estação Ecológica de Niquiá e Estação Ecológica de Caracaraí), e indiretamente afeta quase todas as unidades de conservação em Roraima. “Impacta uma diversidade especialmente grande de aves nas áreas sacrificadas. Vai emitir gases de efeito estufa, sobretudo o metano e vai alterar o regime hidrológico rio abaixo, um efeito que tem matado grandes áreas de floresta inundada a jusante da hidrelétrica de Balbina”, destacou.

O cientista lembra que a população ao longo do rio e abaixo da UHE Bem Querer sofrerá da mudança do regime hidrológico, assim como da diminuição da pesca provocado pela diminuição de oxigênio na água, o bloqueio da migração de peixes e a diminuição dos nutrientes na água.

“Esta diminuição dos nutrientes ocorre devido à retenção de sedimentos no reservatório, pois os nutrientes são associados às partículas de sedimento. O rio Branco tem muitos sedimentos, e é por isso que ganhou seu nome de ‘rio Branco’”, esclarece.

Philip Fearnside  garante que a diminuição de sedimentos a jusante de barragens provoca erosão do fundo e das margens do rio, como está ocorrendo no rio Madeira, onde os sedimentos diminuíram em 30%.  Para ele, a diminuição dos nutrientes causada pela retenção de sedimentos mina toda a cadeia alimentar que sustenta a população de peixes. “Os sedimentos do rio Branco também são essenciais para manter os ecossistemas do arquipélago das Anavilhanas (AM), que se formou no rio Negro a partir destes sedimentos. Ou seja, a UHE Bem Querer ameaça uma das joias do sistema brasileiro de parques nacionais”.

No ponto de vista de Philip, Roraima não precisa da barragem, pois foi identificado como tendo o melhor potencial para energia solar entre os estados amazônicos, a população do estado é pequena e a barragem não elimina a planejada linha de transmissão de Manaus, que já está conectada à UHE Tucuruí. “A maior parte da energia que seria gerada pela UHE Bem Querer não é intencionada para Roraima, mas sim para outras partes do Brasil”.

De acordo com o pesquisador, um representante da Empresa de Pesquisa Energética, do Ministério das Minas e Energia, explicou isto com todas as letras em um evento público em Boa Vista em julho de 2018. Como Roraima se encontra no hemisfério norte, as estações do ano são invertidas em relação ao resto do Brasil. “Portanto, a energia gerada em Roraima quando há muita chuva neste estado pode ser transmitida para o sul do equador quando falta água para usar toda a capacidade das hidrelétricas lá”.

Ele lembra ainda que o representante do Ministério das Minas e Energia falou que ‘agora é a hora de Roraima fazer pelo Brasil’. “Isto representa mais um exemplo do impacto de barragens amazônicas em termos de justiça ambiental”, garante.

Philip Fearnside afirma que para tomar decisões sensatas sobre grandes obras como esta, precisa levantar e considerar os impactos, os benefícios e as alternativas antes de tomar a decisão. “Essas informações precisam ser colhidas e apresentadas sem viés e precisam ser divulgadas e debatidas democraticamente como parte da tomada de decisão. Não pode ser como é feito hoje no processo de licenciamento, como um passo formal para legalizar uma decisão já tomada”.

Por Nei Costa

Amazônia Real

Foto – Divulgação

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