Foto: Aline Silva/ Comunidade indígena no Amajarí

Leilão para suprimento nos Sistemas Isolados não contemplou energias renováveis em Roraima

A solução energética para atender as localidades de Uiramutã, Pacaraima e Amajarí, em Roraima, vai ser a óleo diesel. Esse foi o resultado do Leilão para Suprimentos aos Sistemas Isolados da Agência Nacional de Energia Elétrica, realizado na última sexta-feira (30).

O resultado foi lamentado por Ciro Campos, representante do Instituto Socioambiental (ISA) e membro do Fórum de Energias Renováveis de Roraima. “Infelizmente o resultado do leilão deu cem por cento diesel pra Roraima, de novo. Poderia ter sido diferente, o Fórum de Energias Renováveis alertou, tentou avisar a Aneel, fez sugestões ao edital para que fosse possível haver competição com as outras fontes cada vez mais viáveis como o sol, vento, biomassa”.

O período para suprimento terá início em 1º de abril de 2023 e terá duração de até 180 meses, a depender da localidade. No Amazonas a solução será a gás natural (Usina Xavantes), no estado do Pará será o biodiesel (Brasil BioFuels), em Rondônia a solução será também com o biodiesel, com a mesma empresa. Já a solução contratada para o Acre e Roraima foi o óleo diesel.

“Perde o Estado, porque além de a gente não limpar a nossa matriz energética, a gente também deixa de ganhar dinheiro com as nossas empresas que trabalham com a energia solar, com a geração de empregos. A Aneel diz que nos próximos leilões as regras vão ser ajustadas, e a gente torce que sim. Infelizmente não deu tempo de resolvermos a situação de Roraima, apesar das inúmeras tentativas junto a Aneel”. Pontuou Ciro.

Conceição Escobar, presidente da Associação Brasileira de Engenheiros Eletricistas (ABEE) e também membro do Fórum, informou que a Usina Xavantes, vencedora do leilão em RR e AM, tem o contrato de 5 anos para atender os 3 municípios de Roraima ofertando 5,696 MW, ainda com o uso de diesel, com o deságio de 21% isso resulta num preço de R$ 989,97/ MWh.

“Nos outros estados, como no Amazonas, o gás natural venceu com essa mesma empresa. O biocombustível venceu em outros sistemas, já é um avanço. E o futuro, é que se tenham novas discussões, novas regras que possam favorecer as fontes de energias renováveis”. Destacou Conceição.

Além dos prejuízos ambientais, o prejuízo econômico também deve ser levado em consideração. O consultor do Instituto Clima e Sociedade (ICS) e membro do Fórum de Energias Renováveis, Donato Filho, diz que o consumidor brasileiro paga entre 1.000,00 e 1.200,00/ MWh pra usinas que vão poluir o meio ambiente, e que vão onerar a tarifa de todos os brasileiros. A tarifa de energia elétrica hoje tem 24 bilhões de reais por ano de subsídios, e 8 bilhões de reais desse valor são de combustível fóssil subsidiado para a região norte nos sistemas isolados.

“Na hora que a gente faz um leilão desse e permite que essa situação se perpetue, no fundo é uma mensagem muito grande de desrespeito ao meio ambiente, aos cidadãos que pagam suas contas de luz e também acaba sendo um desrespeito ao avanço tecnológico no país”, reforçou Donato.

De acordo com o consultor, os valores gastos com subsídios poderiam ser melhor investidos em laboratórios de novas tecnologias. “Nós vamos gastar esse dinheiro para queimar diesel, uma tecnologia totalmente ultrapassada. Desejamos que nos próximos leilões não se repita esse abuso. Mesmo esse leilão, se puder, ele deveria ser contestado porque a gente está mostrando que a modernização no setor elétrico é só uma retórica, na hora do “vamos ver” a gente usa o passado”.

De acordo com a Aneel, o investimento do Leilão dos Sistemas Isolados soma R$ 355,5 milhões  com todos os projetos vencedores. Foi negociado 54,7 MW de energia anual média para atender regiões dos estados do Acre, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima.

Veja os resultados por estado

Lote I Acre:  fechado com diminuição no valor de 15% com preço de R$ 1.098/MWh.

Localidades: Cruzeiro do Sul, Feijó e Tarauacá.

Potência Requerida de 50,181 MW. Empresa vencedora: Rovema Energia/ Solução: diesel.

– Lote II Amazonas:  fechado com diminuição no valor inicial de 32%, com preço de R$ 890/MWh.

Localidades: Anamã, Anori, Caapiranga, Codajás, Novo Remanso.

Potência requerida de 8,707 MW.

Empresa vencedora:  Usina Xavantes/ Solução: gás natural.

– Lote III Pará: o leilão foi fechado redução no valor inicial de 23,5% com preço corrente de R$ 1.100/MWh.

Localidades: Anajás, Água Branca, Crepurizão, Faro, Gurupá, Jacareacanga, Muaná, Porto de Moz, São Sebastião da Boa Vista e Terra Santa.

Potência requerida nesse estado é de 31,837 MW. Empresa vencedora:  Brasil BioFuels/ Solução: biodiesel.

– Lote IV Rondônia: o leilão foi fechado com diminuição no valor inicial de 10,1% e preço corrente de R$ 1.252,31/MWh.

Localidades: Urucumacuã e Izidolândia.

A potência requerida nesse estado é a menor do certame, com 0,857 MW.

Nesse lote a Brasil Biofuels também venceu com a mesma solução anterior, o biodiesel.

Lote V Roraima: o leilão foi fechado com redução no valor inicial de 21% com preço corrente de R$ 989,97/MWh.

Localidades: Uiramutã, Pacaraima e Amajarí.

A potência requerida nesse estado é de 5,696 MW.

Empresa vencedora: Usina Xavantes/ Solução: óleo diesel.

 

Por Thamy Dinelli

Foto: Aline Silva/ Comunidade indígena no Amajarí

 

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