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Sistema de energia de Roraima custa mais de R$ 1,1 bi por ano a consumidores do país

O estado de Roraima passou a ser abastecido por usinas termelétricas a diesel desde março de 2019, após a suspensão do fornecimento de energia pelo Linhão de Transmissão de Guri, da Venezuela. As usinas térmicas são responsáveis por quase 100% do fornecimento de energia elétrica em Roraima. A Usina Hidrelétrica de Jatapu, situada no município de Caroebe, contribui em apenas 0,35%.

Segundo estima o engenheiro Frederico Peiró, consultor do Fórum de Energias Renováveis, o custo de geração de energia pelas termelétricas de Roraima ultrapassa R$ 1 bilhão ao ano devido ao uso do diesel.

“Considerando um ano de operação, por exemplo de 01 de novembro de 2019 a 30 de outubro de 2020, período em que a geração de energia elétrica do Estado (Boa Vista e municípios interligados) foi da ordem de 1,25 GWh, foram consumidos cerca de 345 milhões de litros de óleo diesel, que custaram um pouco mais de 1,1 bilhão de reais”, explicou.

A despesa fica ainda maior porque a produção da energia elétrica envolve também os custos de aluguel dos geradores, de manutenção e operação.

Porém, todo consumidor do Brasil acaba arcando com essa conta bilionária. Isso porque Roraima não está conectado ao Sistema Interligado Nacional (SIN). De fato, Roraima é o único estado completamente isolados do SIN.

A Conta de Consumo de Combustíveis, a CCC, é “um encargo do setor elétrico brasileiro pago por todas as concessionárias de distribuição e de transmissão de energia elétrica, de forma a subsidiar os custos anuais de geração em áreas ainda não integradas ao SIN”, informa a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), responsável pela gestão financeira e operacional da CCC.

Além do imenso valor pago pelo restante do país, é importante mencionar que a queima do combustível para manter essas fontes de energia gera poluição para a atmosfera.

“Terá sido da ordem de um pouco mais 900 mil toneladas durante este período, computando apenas o CO2. É muito significativo comparado com os cerca de 56 milhões de toneladas de gás carbônico emitidos pela totalidade do sistema nacional de geração de energia elétrica, principalmente por ser na Amazônia”, pontuou.

Uma alternativa de energia renovável em Roraima, segundo o engenheiro elétrico Frederico Peiró, é a solar. Com essa fonte de energia no estado, o custo com o combustível utilizado nas termelétricas vai diminuir, assim como a geração de poluição.

“A duração da radiação solar é igual em todas as épocas do ano em Roraima. O nível de insolação também é alto devido à região estar acima do equador, local do globo que recebe mais raios solares, o que facilita a produção de energia solar”, acrescenta Peiró.

A adesão a esse tipo de fonte de energia vem crescendo exponencialmente e cada vez mais consumidores, sobretudo residenciais e comerciais, estão utilizando a energia solar. Segundo informações disponíveis no site da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), existiam em novembro do ano passado 228 micro e mini de Geração Distribuída (GD) de Energia Solar em oito municípios do estado.

Entretanto, com uma grande produção, Roraima poderá até fornecer para outros estados como o Amazonas, que tem desvantagem na produção de energia solar.

“Este é um estado em que há menor insolação devido às muitas chuvas e nebulosidade”, explica o engenheiro.

Outra opção de energia renovável e limpa é a eólica. Além das regiões do Norte do estado, nas terras indígenas e áreas vizinhas, vários outros locais prometem potenciais interessantes também, como as imediações de Bonfim e a região da Serra do Tucano.

“A conexão de Roraima ao SIN permitirá escoar para o resto da Amazônia muita energia de origem renovável a um custo certamente muito reduzido. Enquanto as ofertas de energia eólica e solar crescem gradualmente, as usinas termelétricas à gás e biomassa, instaladas em Roraima e no Amazonas, irão garantir a estabilidade de todo o sistema na região”, justificou.

Leilão de sistemas isolados

Está previsto um leilão para suprimento aos Sistemas Isolados. O leilão tem a proposta de priorização das energias renováveis para 23 localidades da região Norte. Entre elas, três localidades de Roraima, sendo os municípios de Amajari, Pacaraima e Uiramutã.

Conforme exemplifica o coordenador do Fórum de Energias Renováveis em Roraima, Alexandre Henklain, o leilão “deve ser a oportunidade para implantar projetos demonstrativos da viabilidade tecnológica, econômica e ambiental de soluções híbridas, baseadas nas energias renováveis”.

“É imprescindível e urgente que se estruture política pública de longo prazo de fomento às energias renováveis para que, dentre outras inovações de gestão, o subsídio que hoje alimenta a conta CCC, de consumo de combustíveis, comece a migrar para as soluções renováveis e sustentáveis, menos onerosas e, com tendência de redução substancial de custos ao longo dos próximos anos, à medida em que as tecnologias evoluem e as escalas de produção industrial crescem”, analisou.

As empresas interessadas em apresentar propostas terão, em princípio, até às 12h de 15 de janeiro de 2021 para protocolar os pedidos de cadastramento e a entrega de documentos junto à Empresa de Pesquisa Energética (EPE), porém foi protocolado na ANEEL pedido de prorrogação dos diversos prazos e de alteração de importantes tópicos da minuta Edital do Leilão, que criam barreiras às energias renováveis.

As contribuições foram desenvolvidas pelo Fórum de Energias Renováveis, com o apoio da ABAQUE – Associação Brasileira de Armazenamento e Qualidade de Energia, ISA – Instituto Socioambiental, UFRR – Universidade Federal de Roraima, ABEE – Associação Brasileira de Engenheiros Eletricistas, ABESCO – Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Conservação de Energia, Rede Energia e Comunidades da Amazônia, Instituto Ideal, GT Infra – Grupo de Trabalho de Infraestrutura e Justiça Socioambiental, Laboratório Fotovoltaico da Universidade Federal de Santa Catarina e a Área de Concentração em Energia e Sustentabilidade do Instituto de Humanidades, Artes e Ciência da Universidade Federal da Bahia.

Por Bruna Cássia

Fotos: Jackson Félix/arquivo pessoal

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